-Rê?
-Oi, aquela patricinha me tira do sério. - Desabafei.
-Não sabia de tudo isso. - Falou, em tom de desculpa.
-Ninguém sabia.
-E o que te fez dizer tudo aquilo?
-Quando ela me chamou de orfãzinha ela me tirou do sério.
-Você está bem?
-Meu, quer falar mal de mim? Fala, eu não me importo, mas não ouse se referir a mim como órfã de um modo pejorativo como ela fez.
-Relaxa, você calou a boca dela, acho que vai te deixar em paz.
-Assim espero.
Quando eu estava conversando com a Leandra, a Fernanda entrou, disse:
-Renata, a gente pode conversar? - Disse, tímida.
-O que você quer? - Rosnei.
-Vou deixar vocês duas a sós. - Mais uma vez a Leandra saiu à Francesa.
-Falar sobre o que aconteceu lá embaixo.
-Veio me zoar mais? Veio começar a usar o que eu te disse? Vamos lá, comece, sou toda ouvidos!
-Não. Vim me desculpar pelo que eu disse. Não sabia o que dizer pra te responder, então a única coisa que eu pensei foi naquilo, desculpa não devia ter dito aquilo, com mãe não se faz piada, mas eu tava nervosa e na hora eu não pensei. - Disse, e deu para ver que ela tava arrependida...
-Pois devia. Olha, você quer falar mal de mim? Pode falar eu não ligo, mas não mexe com assuntos que envolvam a morte da minha mãe, isso eu não permito, isso chega a ser baixo.
-É que eu... Pra ser sincera, eu to magoada com você, tipo num dia você está super carinhosa, até me defende, e quando chega em publico me trata daquele jeito, achei que essa implicância ia parar, mas pelo visto tudo foi só uma brincadeira pra você né? - Disse, em tom desconsolado.
-Meu, eu já disse, se você não sabe, não fala.
-Senão é isso, o que pode ser?
-Sua anta, eu fiz isso pra te ajudar.
-Ah claro. Me fez contar pra minhas amigas que eu sou apaixonada por você, me fez dizer pra elas o que aconteceu entre a gente, me fez dizer que eu acreditava que você também gostava de mim e que nós íamos ficar juntas, pra quê? Pra chegar na frente delas e me humilhar como fez.
-Eu não mandei você dizer pra elas... Calma ai, você disse que é apaixonada por mim? - Fiquei surpresa com essa revelação.
-Devia ter calado minha boca. Agora você vai ficar me zoando.
-Não. Eu, ao contrário de você, não faço piadinhas com os sentimentos dos outros. Mas sim, fiz aquilo porque eu queria te ajudar.
-Ajudar como? Me humilhando na frente de todo mundo?
-Eu pensei que fazendo aquilo, me afastando de você tudo ia voltar a ser como antes: Você implicando comigo e eu implicando com você, com você me tratando mal e eu te tratando como antes você ia poder refazer sua “reputação”, e tudo ia voltar a ser como antes. Mas, não você foi dizer essas coisas sem me dizer nada.
-E precisava?
-Claro, eu não ia adivinhar que você é apaixonada por mim.
-Mas você disse isso no sábado.
-Eu disse aquilo pra te provocar, eu não imaginava que você gostasse de mim de verdade.
-Que vergonha.
-Mas porque você gosta de mim?
-Nada, esquece.
-Não, agora você vai ter que me dizer.
-Sei lá porque eu gosto de você é a mesma coisa que perguntar por que pijama tem bolso, não tem resposta. E agora você deve estar me achando mais idiota do que nunca. – Disse, sem saber onde enfiar a cara.
-Não mais que o normal.
-Cara, você não muda.
-Esse é meu jeito, faço piada com tudo que eu posso.
-Talvez eu tenha me apaixonado por você por causa disso, dessa sua alegria. Pra ser sincera, eu sei que vou me arrepender de dizer isso, depois das coisas que você disse hoje, de todos os problemas que você passou, você ainda continua brincando, fazendo piadas a todo o momento, eu acho que to gostando mais ainda de você.
-É, eu sei que sou demais. - Disse isso pra zombar com a cara dela.
-É disso que eu to falando, a gente acabou de ter um briga super séria lá embaixo e agora você ta brincando.
-Não vai adiantar de nada ficar nervosa, não vai mudar tudo o que já passei e quanto à briga, você já se desculpou, e ainda por cima se declarou pra mim. Que mais eu posso querer?
Ela sorriu.
-Agora, falando sério, será que a gente pode parar com essa implicância tola? - Perguntou, quase como uma súplica.
-Não sei tenho uma reputação a zelar. - Debochei.
-Larga de ser boba. - Ela disse rindo.
-Mas bem que você gosta da boba aqui, né? - Provoquei.
-E quanto a não fazer piadas com os sentimentos dos outros?
-Eu estou te ofendendo? Não, eu não faço desde que seja algo que vai te ofender ou te prejudicar, agora eu estou brincando com você, não estou te ofendendo.
Ela sorriu, e disse:
-Tá bom. Mas então: Paz?
-Tá né, vamos parar com essa implicância.
-Sem mais piadinhas sobre mim?
-Sem piadinhas.
-Então, agora sim. Posso fazer uma pergunta?
-Poder pode, só não garanto que eu vá responder.
-Mas eu vou arriscar mesmo assim. Porque você deu em cima de mim?
-Bem, que você gostou, né?
-A pergunta não foi essa.
-Mas você gostou ou não?
-Se eu gosto de você, é óbvio que eu gostei. Mas não muda de assunto, por quê?
Nessa hora o sinal tocou.
-Ih olha que coisa chata, o sinal tocou, não vai dar pra te responder, olha que tragédia, não é mesmo?
-Você conseguiu, mas tudo bem você ainda vai me responder isso.
-Fernanda, mudou de sala? - Disse a professora que tinha acabado de entrar na sala.
-Não professora, eu já estou saindo. - Disse se levantando da cadeira. - Você ainda vai me responder.
-Tchauzinho. - Zombei.
-Desculpa professora.
A Fernanda saiu da sala e a Leandra veio falar comigo:
-E ai, como foi a conversa?
-Leandra?
-Sim professora?
-Eu já estou na sala, então sem conversa.
-Sim Senhora, desculpa professora.
A Leandra se virou pra mim e disse:
-Você não vai fugir.
Na hora do intervalo estava saindo da sala quando a Leandra disse:
-Me espera, eu quero saber o que aconteceu.
-Então vamos, anda.
-Então o que ela disse?
-Ela pediu desculpas pelo que disse e...
-E o que?
-Ela se declarou pra mim.
-Como é que é?
-Isso que você ouviu, ela disse que é apaixonada por mim.
-Não acredito! A patricinha se apaixonou pela rebelde da escola. - Falou em tom de zombaria
-Obrigada pelo “Rebelde”.
-Você entendeu. Agora eu vou encarnar nela até o fim do ano.
-Não, você na vai zoar ela com isso.
-E porque não?
-Você ia gostar que te zoassem porque você gosta de alguém?
-Não, mas ela é diferente, ela é a Fernanda! - Disse como se isso explicasse algo.
-E daí?
-Ela é a menina que você implica desde que chegou na escola.
-Eu sei, mas mesmo assim, eu não vou fazer com ela o que eu não gostaria que fizessem comigo.
-Tá vendo? Você gosta dela, assume isso de uma vez.
-Meu, pára com isso. Eu já falei que não.
-Tá então prova, espalha pra todo mundo, faz ela se sentir humilhada.
-Não.
-Viu? Você gosta dela.
-Pensa o que você quiser, mas eu não vou fazer isso.
-Você está muito diferente. - Ela criticou.
-Não, eu sempre fui assim. Eu não faço com os outros o que eu não quero que façam comigo.
-Meu, ela é a Fernanda, pára de proteger ela, agora mesmo você tava falando um monte pra ela.
-Era diferente. Olha, se você não quiser arranjar uma briga comigo é melhor você parar com isso. - Ameacei.
-Ta bom, não precisa ficar nervosa comigo. Mas e você a perdoou?
-Aham, a gente ta de boa, combinamos de parar com as implicâncias.
-To falando...
-Leandra!
-Tá, eu já parei.
Na hora da saída, quando estava saindo, Leandra me chamou:
-Rê, vamos no cinema hoje?
-Não vai dar. Eu vou lá na Fabiana.
-Fazer o que?
-Sei lá, eu vou lá.
-Você vai lá e não sabe nem o porquê? - Disse sem entender muito.
-Exato.
-Quer que eu vá junto?
-Não precisa, pode ir ao cinema. Eu vou lá.
-Você que sabe.
-Bom já vou indo, beijo.
-Tchau.
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