quarta-feira, 18 de novembro de 2009

CAPITULO 12

Quando eu cheguei à casa da Fabiana quem abriu a porta foi a filha dela.
-Oi, por favor, a sua mãe está?
-Tá só um minuto, é Renata né? - Perguntou confirmando.
-Isso.
-Espera aqui, vou chamar ela.
 Não demorou a Fabiana veio até a porta.
 -Oi, tudo bem? Entra.
-Eu estou precisando falar com você. Pode ser? - Perguntei apreensiva
-Sobre aquilo?
-É.
-Tá, Isa você pode subir? Eu preciso falar com ela.
-Tô indo, vou mexer no computador, tá?
-Tá bom, vai lá. Pronto, o que você quer saber?
-Porque você mandou recados pro meu pai?
-O que?
-É, o que tava escrito nesses bilhetes?
-Mas eu nunca mandei bilhete nenhum pro seu pai.
-Não foi o que ele disse.
-Mas eu to falando a verdade, eu nunca mandei nenhum bilhete pra ele.
-Ele me falou que você mandava recados, pra ele se afastar dela, alguns até ameaçando de morte.
-Imagina. Eu nunca mandei nenhum bilhete, principalmente ameaçando ele, eu jamais faria isso. Você viu esses bilhetes?
-Não. Ele disse que jogou fora.
-Então, como você pode acreditar que ele está falando a verdade?
-Você está querendo dizer que ele estava inventando?
-Olha, eu só sei que eu nunca mandei nenhum bilhete. Ele só pode ter inventado.
-Cara, não to entendendo mais nada.
-Desculpa, mas quanto a esses bilhetes, não posso falar nada, até porque não os escrevi.
-Tá, bom brigada, eu vou tentar ver isso. Minha mãe alguma vez falou se estava sendo ameaçada, sem ser pelo meu pai? Ou algo parecido?
-Não, pra mim ela não falou nada, só falou sobre o seu pai mesmo.
-Ela disse se tinha mais alguém apaixonado por ela?
-Pra mim não, mas é provável que houvesse outros apaixonados pela sua mãe, porque mesmo depois de ter sido mãe, ela continuava linda.
-Isso ajuda muito. Bom, acho que é só. Desculpa te incomodar.
-Que isso. Se você precisar de alguma informação ou alguma coisa e se eu puder ajudar eu te ajudo.
-Obrigada. Então, vou nessa.
-Renata, você quer ver umas fotos dela? - Perguntou amistosamente.
-Você tem alguma? - Perguntei animada.
-Ih um monte, vem eu te mostro, senta aí que eu já trago.
-Claro.
 Ela subiu as escada e logo trouxe uma caixa, já envelhecida e gasta pelo tempo.
-Essa caixa está cheia de fotos dela.
-Sério?
-Aham, nós tirávamos muitas fotos, era nosso passa tempo preferido.
-Nossa. Eu não sabia que você tinha fotos dela.
-Fica vendo, eu vou pegar uns biscoitos pra gente, suco ou café?
-Suco, por favor.
Enquanto eu fiquei vendo as fotos, que eram muitas, ela foi pegar uns biscoitos, sem demorar muito.
-Olha, pega. - Disse oferecendo uns biscoitos de chocolate, e suco de uva.
-Obrigada.
-Olha essa foto, foi um dia que nós duas levamos você no parquinho, você não parava de correr de um lado pro outro.
-Pelo visto eu era bagunceira desde pequena.
-Muito! Nossa, sua mãe ficava louca de preocupação, você vivia machucada. - Disse com ar nostálgico.
-Vem cá, o que você acha que minha mãe diria se me visse hoje? - Perguntei, tentando saber um pouco mais sobre minha mãe.
-Você diz por causa dos piercings?
-É, pelos piercings, pelo meu jeito de ser...
-Eu acho que ficaria surpresa com os seus piercings, mas ia gostar, na verdade ela queria pôr um no nariz, mas ela tinha medo e seu pai também não deixava.
-Sério?
-Aham, ela morria de medo da agulha, era muito medrosa. E quanto ao seu jeito, não sei como agiria, mas sei que ela ia te amar, independente de qualquer jeito que você tivesse, ela sempre foi louca por você, tanto que uma das condições pra ela ficar comigo foi eu aceitar que você viesse morar com a gente.
-Eu lembro que ela sempre se deitava comigo até eu dormir fazendo cafuné, sempre brincava comigo...
-Você era tudo pra ela, a maior preocupação dela vir morar comigo era como você reagiria quando soubesse que ela namorava outra mulher.
-É, li isso no diário dela.
-O que mais você leu?
-Na verdade eu só li o diário do ano que ela morreu, e nele ela falava dos problemas com meu pai, falava que ele não estava aceitando a separação, mas falava que gostava muito de você. Por isso eu sei que posso confiar em você, se ela confiava é porque você é de confiança.
-Sua mãe era especial, ela tinha uma doçura e ao mesmo tempo uma personalidade marcante, podia ser um amor, mas também podia ser de uma dureza, nervosa que só. Ela era única, eu ainda sinto muita falta dela.
Ela disse isso com lágrimas nos olhos. E logo ela se desculpou.
-Desculpa, eu ainda me emociono muito quando lembro da sua mãe.
-Tudo bem, tipo é meio estranho ver uma mulher chorando pela minha mãe, essa coisa da minha mãe ser homossexual ainda é muito nova pra mim, mas não tem problema, eu vou me acostumar.
Ela sorriu.
-Sabe? Você vai achar bobagem, mas tudo o que eu faço até hoje é pensando nela, pra você ter uma idéia até o nome da minha filha eu dei Isa por causa dela.
-Mas o nome da minha mãe era Márcia.
-Mas ela sempre gostou de “Isa”, seu nome era pra ser Isa, mas seu pai não quis.
-Por quê? Você sabe? É um nome tão bonito.
-Não sei. Mas já que ele não tinha gostado de Isa ela decidiu dar o nome de Renata.
-Como vocês se conheceram?
-Na verdade a gente se conheceu na escola, mas nós nos desencontramos, até então éramos amigas, aí no final de 96 a gente se reencontrou, fazíamos academia juntas, então confessei pra ela o que eu sentia, que na verdade começou quando nós estudávamos juntas, e quando nos reencontramos ela estava mais linda do que nunca, nós nos reaproximamos, e acabei arriscando e falei pra ela o que eu sentia.
-E qual foi a reação dela?
-No começo ela se assustou um pouco, mas ela também gostava de mim, então aconteceu tudo aquilo que você deve ter lido no diário dela.
-Se ela também gostava de você, porque ela se assustou?
-Porque ela nunca tinha ficado com nenhuma mulher, mas ela viu que o que a gente sentia era mais forte do que o medo dela.
-Mas vocês não se preocuparam com o que os outros iam dizer?
-Sabe a gente dividia a mesma opinião quanto a isso, nós nos preocupávamos que nós nos amávamos, a única opinião que importava pra ela era a sua. Estávamos pouco se lixando pro que os outros iam dizer, a gente se amava e era isso que importava, o resto era só o resto.
-Que paulada. - Disse, sem perceber.
-O que? - Ela disse sem entender.
-Não, não é nada, só estou pensando alto. Bom, obrigada pelo suco e pelos biscoitos, eu já vou indo.
-Não precisa agradecer. Sempre que quiser de uma amiga eu to aqui.
-Nossa, brigada.
 
Voltei pra casa com tudo que a agente tinha conversado dando voltas na minha cabeça. No outro dia fui para escola, mal cheguei e sem falar com ninguém, fui ao banheiro quando estava saindo eu vi a Fernanda vindo em direção, correndo e chorando.
 -Fernanda? O que aconteceu? - Perguntei, preocupada.
-É muito bom saber que você é uma pessoa de palavra. - Disse, irônica.
-Que? Do que você está falando? - Sem entender.
-Eu achei que não fizesse piadinhas sobre sentimentos dos outros, mas que idiotice a minha, a grande piadista da escola não fazer piada disso seria absurdo, não é mesmo?
-Será que você pode explicar do que você está falando?
-Eu confiava em você, por que foi espalhar pra todo mundo que a “patricinha se apaixonou pela rebelde da escola”.
-Eu não falei nada, nem fiz piada alguma sobre isso. Onde você ouviu isso?
-A sua amiguinha, Leandra, fez questão de me contar que eu tinha virado a piada da escola. - Disse nervosa.
-Vem comigo. - Disse, resignada.
-Que foi? - Ela não entendeu.
-Cadê ela? - Perguntei, furiosa.
-Tá no refeitório, por quê?
-Vamos lá.

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