sexta-feira, 20 de novembro de 2009

CAPITULO 13

Chegando no refeitório, eu fui falar com a Leandra.
-Leandra, você pode me explicar o que está acontecendo aqui?
-Renata?
-Eu mandei você não fazer piada com isso, não mandei?
-Rê, ela é a Fernanda, pára com isso.
-Não, não paro. Droga, por que você fez isso?
-Meu você vai defender ela na frente de todo mundo?
-Vou, porque ela que está com a razão. Caramba, que te deu? Você começou com umas besteiras de repente, por que isso agora?
-Meu você é cega ou o que? Ela está armando pra cima de você.
-Que seja, a questão aqui não é essa, a questão aqui é que eu pedi uma coisa pra você e você fez o oposto. Eu te pedi isso em confiança.
-Eu já sei Renata. - Disse a Fernanda de repente.
-Já sabe o que? - Perguntei, sem entender.
-A Leandra é apaixonada por você, não é Leandra? - Quando a Fernanda disse isso fiquei em choque, não esperava isso.
-Do que você está falando, garota?
-Claro, tava tão óbvio. Não acredito que você nunca percebeu, Renata.
-Pára de falar besteira, menina.
-Isso é verdade, Leandra? - Perguntei.
Ela ficou calada, e me olhou sem saber o que dizer.
-É por isso que você está estranha, Leandra? - Insisti.
-Demorou pra você perceber, hein? - Ela disse, revoltada.
-Demorei por que eu não imaginava que você gostasse de mim. Porque nunca falou nada?
-Pra que? Pra levar um fora seu? Não, muito obrigada.
-De qualquer forma você tinha que ter vindo falar comigo.
O sinal tocou, ela se virou e foi pra sala. Sem falar nada eu fui também.

Na hora do intervalo eu fui falar com ela.
-Leandra, não sai ainda. Preciso falar com você.
-Que foi? Veio me dar um fora definitivo? Não precisa.
-Porque você nunca me falou nada?
-Porque eu sabia que ia levar um fora, você gosta é da Fernanda, meu pára de negar, está escrito na sua testa que você gosta.
-Porque fez isso com ela hoje?
-Porque eu não consigo suportar ver ela saindo por cima sempre, não podia aceitar que você a protegesse por causa dessa paixão, não podia permitir que vocês acabassem juntas, eu tinha que fazer alguma coisa, pra ela ficar com raiva de você, e assim te esquecer e você ficar só pra mim. Pelo visto isso não deu certo, né?
-Olha, eu não to te reconhecendo... Eu preciso pensar. Depois a gente se fala.
Eu saí da sala, e encontrei a Fernanda no final do corredor.
-Ah, oi, olha desculpa pelo que a Leandra fez hoje, eu tinha pedido pra ela não fazer piadinhas, mas...
-Mas ela é afim de você e ficou com ciúmes. - Ela completou.
-Você pega as coisas rápido. - Elogiei.
-Mas na verdade eu é que tenho que pedir desculpas, te acusei sem ter provas e estava errada, desculpa. - Disse, sem graça.
-Relaxa, era natural que você me acusasse, só eu sabia, então não se preocupa com isso.
-Eu fui até a sua sala, mas você tava falando com a Leandra, então não quis atrapalhar. E eu acabei escutando um pedaço da conversa.
-Ah é?
“Ih agora fudeu!” Foi isso que passou na minha cabeça na hora.
-E o que você escutou? - Perguntei com medo da resposta.
-A parte que ela falou que você gosta de mim, isso é verdade? - Era o que eu temia!
-Sabe, eu to com tanto problema, que eu nem to pensando nisso agora.
-Ah, desculpa, é que eu fiquei curiosa, eu não devia ter escutado a conversa entre vocês. – Nos duas estávamos sem graça.
-Não, me desculpa você, por não poder te dar a resposta que você quer escutar.
Meu celular começou a tocar, alguém havia me mandado mensagem. Era da Leandra.
“Desculpa por tudo, acho melhor nos afastarmos, pelo menos por um tempo”.
-Droga.
-Que foi?
-A Leandra quer se afastar de mim.
-Vocês eram muito amigas, né?
-Ela que mais me ajudou quando eu mais precisei.
-Será que eu posso ajudar?
-Duvido.
-Me fala, quem sabe eu possa te ajudar?
-Não sei se é uma boa idéia.
-Já entendi, você não quer falar, desculpa não queria me intrometer.
-Não, é que eu não queira falar, é que é um assunto muito sério, e não quero te envolver.
-Bom, quando você se sentir segura pra falar, pode vir falar comigo.
-Obrigada, mas acho que esse é um assunto que eu tenho que resolver sozinha.

Na hora da saída, enquanto estava indo para casa meu celular tocou, era meu pai:
-Alô? Pai?
-Filha?
-Aconteceu alguma coisa?
-Tô ligando pra saber como você está? - Isso foi estranho!
-Ah eu to bem, e você?
-Bem, será que a gente pode se encontrar?
-Por quê? O que aconteceu?
-Nada, só queria te encontrar, pode ser?
-Pode, onde?
-Na frente do cinema, umas três horas, o que você acha?
-Ótimo, eu vou estar lá.
-Então até daqui a pouco.
-Até.
-Beijo.
-Tchau.

No horário combinado eu fui encontrar meu pai.
-Oi.
-Como você está filha?
-Indo.
-Algum problema?
-Alguns.
-E eu posso ajudar em alguma coisa?
-Na verdade não.
-Mas se eu puder fazer alguma coisa, estou aqui. - Isso foi mais estranho ainda.
-Tá, valeu.
-Mas então, como está a sua vida fora de casa?
-Tranquila.
-Vamos pra aquela lanchonete, ali.
-Ta bom.
-Filha agora que a gente está de cabeça mais fria, você não prefere voltar pra casa? Afinal lá é a sua casa, é só você parar com essa história.
-Se você está se referindo à minha homossexualidade, é melhor nem continuar, que vai ser pior.
-Mas então você está morando aonde?
-Na casa da minha madrinha.
-O que? É claro que você não vai parar com essa besteira.
-Do que você está falando?
-Que é óbvio que você morando lá, vai demorar pra passar essa besteira de ficar com garotas.
-O que uma coisa tem a ver com a outra?
-Sua madrinha, porque você acha que eu nunca fui com a cara dela?
-Eu é que vou saber?
-É melhor deixar pra lá.
-Calma ai. Você está querendo dizer que minha madrinha gosta de mulher também?
-Ela nunca te falou isso?
-Não. Mas calma ai, se você não gosta dela, porque chamaram ela pra ser minha madrinha?
-Porque sua mãe era muito amiga dela, então não pude recusar esse pedido, eu fazia qualquer coisa pra eu ver sua mãe feliz.
-Eu não sabia da minha madrinha.
-Porque você foi morar lá?
-Porque desde sempre ela me apoiou, então lá foi o único lugar que eu pensei.
-Volta pra casa, vamos continuar como era antes.
-Não, por que eu não vou mudar, e a gente vai continuar discutindo.
-Bom, quando você volta se quiser, as portas de casa estarão abertas.
-Ta, obrigada. Mas sua raiva dela é só por ela ser lésbica?
-Pra ser sincero, não é isso não. Ela e sua mãe eram muito amigas, e sempre achei que a Cátia era apaixonada pela sua mãe, mas sua mãe falava que era coisa da minha cabeça, mas nunca acreditei muito não.
-Você tem certeza?
-Que ela era apaixonada pela sua mãe?
-É.
-Certeza eu não tenho, mas eu sempre achei que a Cátia era apaixonada por ela, da parte da sua mãe eu não acredito que tenha sido recíproco.
-Qual foi a sua reação quando descobriu que minha mãe queria se separar?
-Na verdade, e fiquei mal, cheguei até falar besteira, mas eu amava sua mãe demais, ela era tudo pra mim, tanto que na noite que ela morreu, eu tinha pedido pra sua madrinha sair com você pra eu tentar fazer as pazes com a ela, fazê-la mudar de idéia, mas quando eu cheguei lá ela já estava morta, eu queria morrer quando eu a vi daquele jeito.
-Minha mãe tinha alguma pessoa que não gostava dela?
-Até onde eu sei não, ela sempre foi uma pessoa bem querida por todos, era um amor de pessoa, a pessoa mais maravilhosa do mundo, ela era muito especial.
-Então porque você acha que alguém a mataria?
-Não sei, mas eu sei que ela não se matou, ela não faria isso.
-Pra mim essa história está muito mal contada.
-Pra mim também.
-Então porque você nunca foi atrás da verdade?
-Eu ia falar o que? “Ah ela não fez isso, porque ela jamais se mataria.”
-Sei lá, lutasse, fizesse qualquer coisa.
-Eu ia passar de bobo isso sim.
-Que passasse.
-Não é tão simples assim.
-Nunca é né pai? Quando se tem má vontade ou medo de alguma coisa sempre é mais difícil.
-Você não sabe do que você está falando. Não sabe o que sofri.
-E eu? Você acha que não sofri? Pra você é muito fácil se fazer de coitado, aliás, foi isso o que você fez a vida inteira, desde que minha mãe morreu, né?
-Do que você está falando? Eu nunca me fiz de coitado.
-Foi mais fácil se embebedar, do que encarar as coisas de frente, né?
-Você não sabe do que está falando.
-Sei, sei muito bem, porque eu que fui deixada de lado esses anos todos, tinha que ficar vendo você se embebedar e rezar pra que não cismasse de me bater, você não sabe como era horrível voltar pra casa com medo de apanhar de novo por causa da sua bebedeira. Mas você nunca se preocupou com isso, né? Estava ocupado demais se fazendo de coitadinho, nunca se preocupou com ninguém além de você mesmo, e quem se ferrou esses anos todos fui eu.
-Olha, eu sei que não estive presente em muitos momentos, mas nunca me fiz de “coitadinho”, como você diz.
-“Não esteve presente em muitos momentos”? Você nunca esteve presente em momento algum! Depois que minha mãe morreu, você mergulhou um mundo de amargura, que acabou esquecendo que ainda tava vivo, que ainda tinha a mim que dependia de você. Eu era só uma criança, eu tive que me criar sozinha porque com você, eu nunca pude contar pra nada, pra nada!
-Você não tem o direito de me julgar assim.
-Eu não estou te julgando, estou falando do inferno que foi minha vida nesses últimos anos, graças a você. Eu acho melhor ir embora, não deveria ter vindo. Quando você resolver enfrentar as coisas de frente, em vez de se esconder na bebida, acho que a gente vai poder conversar, mas até lá vou levando a minha vida e você leve a sua, mas não me procure, porque não quero fazer parte desse seu mundo onde só você é que importa, onde você é o centro de tudo, onde só você tem sentimentos. Tchau.
-Filha, espera, volta aqui.
-A gente não tem mais nada pra conversar enquanto você não resolver encarar as coisas de frente. Fui.

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