segunda-feira, 9 de novembro de 2009

CAPITULO 8

Estava em casa e não tinha nada para fazer, resolvi ler o diário da minha mãe. Comecei pelo diário do ano que ela morreu.
“(Três de fevereiro, 1997) Hoje, eu encontrei aquela pessoa, não sei o que fazer, estou cada dia mais confusa”.
Pessoa? Que pessoa?
“(Quatro de fevereiro, 1997) Hoje, ela veio aqui quando o Edgard estava no serviço e a Renata na escola, conversamos e ela finalmente se declarou pra mim, disse que está gostando de mim, e que sabe que eu também gosto dela, disse que se eu a quiser assume a mim e a minha filha. Ela tinha um olhar tão doce quando falava comigo, deu vontade de jogar tudo para o alto e ficar com ela... Mas eu não posso pensar só em mim, eu tenho uma filha que eu tenho que pensar o que é melhor pra ela, eu tenho que pensar no que isso pode afetar a vida da minha princesa, e tem o Edgard também. Porque tudo tem que ser tão complicado?”.
Não estava entendendo mais nada, minha mãe gostava de garotas? Será que eu entendi errado?
“(Quinze de fevereiro, 1997) A Fabiana veio falar comigo de novo, eu gosto tanto dela, e sei que ela também gosta de mim, mas eu tenho medo do que possa acontecer com a minha filha, tenho medo que ela não entenda e se vire contra mim, mas o que eu sinto pela Fabi é tão forte.”
“(Vinte e sete de fevereiro, 1997) O Edgard está muito agressivo, a bebida está acabando com ele, o que está me dando mais vontade de ficar de vez com a Fabi. Pronto, já decidi eu vou ficar com a Fabi, vou pegar minha filha e ficar com ela. Quanto à minha filha eu vou explicando quando estiver crescendo, espero que eu esteja fazendo a coisa certa! Agora é tomar coragem e falar com o Edgard.”
“(Vinte e oito de fevereiro, 1997) Hoje quando a Renata estava na escola, chamei a Fabi aqui em casa, e falei que estava disposta a ficar com ela, desde que aceitasse que minha filha viesse comigo, ela disse que tudo bem, que o que importa é estar comigo, eu disse que só precisava de um tempo para poder falar com o Edgard, ela falou que me esperaria. A cada dia que passa gosto mais dela, é tão compreensiva, dava para ver o amor dela nos olhos enquanto falava.”
“(Três de março, 1997) Peguei o Edgard lendo o meu diário, ele está calado, mal fala comigo, sei que está magoado, amanhã eu vou falar com ele, acho que chegou a hora da verdade. Do jeito que está não dá pra continuar”.
“(Quatro de março, 1997) Hoje eu falei com o Edgard, ele disse que não vai deixar me separar dele por causa de outra mulher, tenho que dar um jeito de me separar, mas estou com medo, ele está muito estranho nunca o vi desse jeito, estou assustada, temo que ele faça alguma besteira”.
“(Cinco de março, 1997) Hoje fui falar com o Edgard, ele disse que não permitirá que eu saia de casa para ficar com outra mulher, ele disse que é capaz de fazer qualquer coisa para que isso não aconteça.”
 “(Oito de março, 1997) Esse fim de semana peguei a Renata, e vim para a casa dos meus pais, vou passar o fim de semana aqui, estou com medo que ele faça alguma besteira, ele me disse que seria capaz de matar para que eu não vá morar com outra com mulher.”
“(Dez de março, 1997) Hoje cedo eu vim para casa com a Renata, mais uma vez ele falou em morte, estou ficando realmente assustada, não sei mais quem é o homem que mora aqui em casa”.
 Ela morreu no dia onze de março. Não! Ele não podia ter feito isso. Ele não podia ter sido capaz de fazer isso, ele ser preconceituoso é uma coisa, mas daí ele ser um assassino? Não, isso é impossível.
Fui falar com minha madrinha, ver o que ela sabe sobre a morte da minha mãe.
 -Madrinha, cadê você? - Chamei.
-Tô aqui no quarto, vem cá. - Ouvi.
-Madrinha, posso perguntar uma coisa? - Disse entrando no quarto e sentando na beira da cama dela.
-Pode, o que? - Disse, curiosa.
-Minha mãe, você sabe como ela morreu? - Perguntei de uma vez.
Ela hesitou, por um momento eu fiquei com medo da resposta, medo de que minha suspeita estivesse certa.
-Rê, sua mãe foi encontrada morta, ela... Ela se suicidou.
-Que? - Fiquei em choque.
-É, quando seu pai chegou em casa, ele entrou no quarto e a encontrou morta.
-E eu? Onde eu estava?
-Eu tinha te pego, íamos ao cinema, e quando eu soube o que aconteceu, decidi que você passaria a noite aqui.
-Mas porque bem naquele dia a gente foi no cinema?
-Sua mãe estava querendo se separar do seu pai, então ele, que não queria se separar, pediu para eu sair com você porque queria conversar com sua mãe para tentar fazer as pazes com ela, então seu pai me pediu para sair com você. Ai, depois eu liguei para sua mãe e seu pai atendeu e me disse o que aconteceu, ai eu achei melhor que você dormisse aqui.
-Então quer dizer que meu pai pediu para você sair comigo?
-Aham, por quê?
-Por nada. - Disfarcei.
-Mas porque essa curiosidade agora? - Perguntou sem entender.
-Nada, é que eu cresci sem saber direito o que tinha acontecido, então eu fiquei curiosa, só isso.
-Ah, então o que aconteceu foi isso.
-Obrigada madrinha.
-Se tiver mais alguma duvida é só perguntar.
-Tá bem. Bom, agora eu vou dormir porque amanhã eu acordo cedo. Boa noite.
-Boa noite, até amanhã.
 
No dia seguinte, na escola, fui falar com a Leandra, ver o que ela achava sobre aquilo que eu tinha descoberto.
-Leandra vem cá, eu preciso falar com você, urgente!
-Que foi? O que aconteceu? - Ela disse preocupada.
-Vamos pra sala.
-Nossa, o que aconteceu?
Quando chegamos à sala, a Leandra perguntou novamente.
- Me fala o que aconteceu, você ta me assustando.
-Assustada estou eu. - Confessei
-Por quê?
-Eu acho que meu pai matou minha mãe. - Falei pra ela o que tava na minha cabeça a noite toda.
-Do que você está falando?  Da onde você tirou isso?
-Minha mãe ia se separar do meu pai pra ficar com uma mulher, mas ele não queria e até ameaçou ela de morte e...
-Calma, respira. Agora me fala: aonde você viu isso? Quem te falou isso? - Ela me interrompeu.
-Eu li no diário.
-Então você está dizendo que sua mãe gostava de outra mulher?
-Isso.
-Como mulher? - Perguntou, achando que tinha entendido errado.
-É.
-Como você gosta? - Confirmando
-É. Minha mãe era lésbica ou bi, sei lá, o que importa é que eu acho que meu pai a matou.
-Você não está se precipitando?
-O que eu li, ficou muito claro. Assim eu não to afirmando que foi ele, mas acho que foi. Mas não tenho certeza, não dormi, isso ficou na minha cabeça a noite toda.
-E o que você pretende fazer?
-Não sei, tava pensando em ir falar com a tal Fabiana.
-Quem é essa? É a mulher que tua mãe gostava?
-É.
-Mas o que te disseram sobre a morte da sua mãe?
-Até ontem, não tinham me falado nada, só que minha mãe tinha morrido. Aí depois que li o diário da minha mãe, fui falar com minha madrinha, ela disse que foi suicídio, mas eu tenho minhas duvidas, porque meu pai pediria pra minha madrinha sair comigo bem naquele dia?
-Você vai falar com ela mesmo? É certeza?
-É.
-Mas como você vai achar ela?
-No diário tinha o endereço dela, eu vou ver se ela ainda mora lá. -  Disse, esperançosa.
-Quer que eu vá junto?
-Se você puder ir, vai ser ótimo. Mas se não puder eu vou entender, você não tem obrigação de ir.
-Não, claro que eu vou. Eu sou sua amiga, to aqui pra te ajudar. Você vai lá quando?
-Valeu. Quero ir lá hoje, assim que sair daqui.
-Beleza eu ligo pra minha mãe e aviso que vou chegar mais tarde.
-Obrigada.
 
Quando estava na hora da saída, fui falar com a Leandra:
-E ai, vamos lá?
-Vamos, está com o endereço ai?
-Estou.
 
Quando chegamos à casa da Fabiana, a Leandra perguntou:
-Será que ela ainda mora ai?
-Assim espero, ela é minha esperança, por que sei que minha mãe não se matou, ela era tão alegre, tão sorridente, não é possível ela ter se matado.
-E você prefere acreditar que seu pai a matou?
-Na verdade não, ele pode ser preconceituoso, mas não assassino, não! Pelo que minha mãe dizia no diário ele gostava demais dela, não acredito que tenha matado ela.
-Então quem você acha que matou ela?
-Sei lá, minha cabeça ta muito confusa. Essa é a casa. - Apontei pra uma casa pequena, com um portão branco, mas já desgastado pelo tempo, uma casa que apesar de pequena, aparentava ter sido bonita.
-Deixa que eu toco a campainha. - Ela se ofereceu.
Leandra tocou a campainha e quem atendeu foi uma menina de mais ou menos uns nove anos.
-Pois não? - Ela me atendeu.
-Por favor, aqui mora a Fabiana Andrade? - Perguntei, ansiosa.

2 comentários: